Início MG Pedido de auxílio referente à violência contra a mulher aumenta 35% em...

Pedido de auxílio referente à violência contra a mulher aumenta 35% em Uberlândia

Dados são do primeiro semestre de 2019, quando 275 pessoas foram presas em flagrante. Delegada da Mulher comenta sobre ações que devem ser feitas e ONG fala sobre trabalho com vítimas.

154
0

“Antigamente, as pessoas falavam que em briga de marido e mulher não se devia meter a colher. Mas eu acho que deve meter a colher sim, porque a gente vê que a maioria das denúncias são de vizinhos ou familiares. Essas mulheres precisam da colaboração das pessoas”.

A afirmação é da delegada responsável pela Delegacia da Mulher em Uberlândia, Alessandra Rodrigues da Cunha, para quem a denúncia e o registro das agressões são imprescindíveis para combater esse tipo de crime.

No último dia 7 de agosto a Lei Maria da Penha completou 13 anos e o G1 mostra que na cidade e região cresce o número de atendimentos envolvendo mulheres vítimas de crimes. Juntamente a isso, também aumentam as ferramentas para denúncia, como o aplicativo “Salve Maria” e o apoio de organizações Não Governamentais.

“A conscientização é um fator social. O fator predominante seria a educação, ensinar que a sociedade tem a obrigação de sim, meter a colher na violência doméstica, para que a autoridade saiba onde está havendo esse tipo de crime. Muitas vezes, familiares e vizinhos não denunciam por considerar que aquilo seja uma coisa que o casal tem que resolver, e isso acaba se tornando um futuro feminicídio”, completou.

A delegada ressaltou que muito se avançou no combate à violência e os números compravam isso. A lei, segundo ela, é eficaz sobretudo no que diz respeito às medidas protetivas às quais as mulheres têm direito e nas punições aos agressores.

“Antigamente, bastava ao homem denunciado dar cestas básicas e ele era liberado. Hoje não é assim. Ainda temos que buscar muito, tem muito o que evoluir. A efetivação dela é o que eu espero, mas trouxe muitas melhorias. Se não tivesse em vigor, não teríamos o ganho que temos hoje”.

Em números, repassados pela Delegacia da Mulher de Uberlândia, é possível notar que a quantidade de mulheres que procuraram a unidade para requerer algum tipo de auxílio, desde informações às denúncias, aumentou 35% no primeiro semestre de 2019 em comparação ao mesmo período de 2018.

Este ano foram 1.454 atendimentos, enquanto que nos seis primeiros meses de 2018 foram 1.075.

O número de medidas protetivas também apresentou alta. De janeiro a julho do ano passado foram 208 aplicações, enquanto no mesmo período deste ano já foram 263. O mesmo ocorreu com o número de inquéritos abertos, que saltaram de 163 para 251 no período avaliado.

Em relação ao número de feminicídios, segundo o Centro Integrado de Informações de Defesa Social (Cinds), em 2018 foram seis casos na 9ª RISP, sendo um deles no primeiro semestre. Em 2019, até o momento, há um caso.

Delegada da Mulher de Uberlândia fala sobre os casos de violência

Delegada da Mulher de Uberlândia fala sobre os casos de violência

Para a delegada, não há dúvidas: apesar de haver necessidades de melhorias, os avanços são evidentes. E isso se deve à Lei Maria da Penha e a aplicação da mesma, que oferece garantias para a vítima. Ainda assim, na visão dela, penas mais severas ajudariam ainda mais no combate a esse tipo de crime.

O que tem que ser tratado é a educação. Enquanto não mudarmos essa mentalidade machista que vivemos, não deixaremos de ver isso na sociedade e continuaremos convivendo com esse tipo de violência, que é quando a mulher tem que se policiar sobre qual roupa vai usar pra ir a um show ou no ônibus. Se policiar para não sofrer violência quando sair de casa”, ponderou.

Apesar de o número de denúncias ter aumentado, alguns tipos de violência ainda nem chegam a ser registrados. A delegada lembra que menos de 10% das vítimas de estupro, por exemplo, procuram as autoridades policiais para registrar os casos. É a chamada “cifra negra”.

“A gente fica sabendo por que essas vítimas procuram o hospital para tomarem os coquetéis, mas não registram o boletim de ocorrência”, contou.

Sobre esse nuance pontuado pela delegada, que aponta para um aumento no número de denúncias, o resultado é a alta na quantidade de registros de violência na comparação entre o primeiro semestre de 2018 e o mesmo período de 2019.

Na 9ª Região de Segurança Pública de Uberlândia (9ª RISP), que abrange 25 municípios, houve aumento nas categorias de violência física, psicológica e patrimonial. Já o número de violência sexual diminuiu. Confira a tabela.

Quantitativo de registros de vítimas de violência doméstica e familiar

Tipo de Violência1º semestre 20182º semestre 2018
Violência Física1.4091.491
Violência Psicológica9861.239
Violência Patrimonial138168
Violência Moral5959
Violência Sexual4734
Outras Violências283299

Fonte: Governo de Minas Gerais

Recentemente, na região, pelo menos três casos de violência sexual contra a mulher tiveram repercussão na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba.

Em Uberaba, o corpo de uma mulher foi encontrado com sinais de violência no interior de uma residência. Já em Uberlândia, um caso de violência intra familiar, quando uma jovem foi agredida durante um assalto a loja na região central da cidade.

Na região do Alto Paranaíba, em Patos de Minas, uma jovem foi agredida física e sexualmente pelo ex-namorado. E ainda, em Patrocínio, uma mulher de 33 anos ficou gravemente ferida depois de pular do carro em movimento na BR-365 para fugir das agressões do ex-marido.

Psicóloga Claudia Cruz da ONG SOS Mulher de Uberlândia. — Foto: Paulo Borges/G1

Psicóloga Claudia Cruz da ONG SOS Mulher de Uberlândia.

Apoio às vítimas

Para auxiliar mulheres vítima de algum tipo de violência doméstica, existem Organizações Não Governamentais e ações por parte do poder público. Em Uberlândia, a ONG SOS Mulher atende vítimas de violência, prestando atendimento psicológico, de assistência social e jurídica. No local, a falha na conscientização também reflete nos atendimentos.

Segundo a psicóloga da instituição, Cláudia Cruz, este ano, 99 novos atendimentos foram registrados na instituição. Desse total, muitas vítimas chegam ao local sem conseguir identificar o tipo de violência que sofrem.

“O que mais se observa são casos onde há violência psicológica, que conseguimos identificar a partir do atendimento do caso. Mas, não necessariamente, os casos trazem um viés específico e único de violência. Em termos gerais, vem sempre muito mesclada”, explicou a psicóloga.

Claudia Cruz também chama a atenção para os casos em que os atos de violência ficam naturalizados pelo casal e isso acaba fazendo com que a mulher não reconheça as ações como violência. Em consequência disso, não toma as providências necessárias, como denunciar o agressor.

“Tem a ver com os impactos da violência. De uma maneira geral, as pessoas estão mais alertadas sobre as providências iniciais em casos de violência. Ainda assim, apesar desse conhecimento, na hora de tomar providências ficam confusas, com dúvida e medo. A fala sobre o combate a violência contra a mulher deve ser constante”, conclui.

Salve Maria

Em Uberlândia, a Prefeitura Municipal criou, com apoio da Polícia Militar, o aplicativo “Salve Maria” com intuito de facilitar denúncias de violência contra a mulher. A imprensa mostrou que, em dois meses, de 292 denúncias foram feitas.

A ferramenta permite que qualquer pessoa denuncie abusos de forma rápida e precisa, por meio de um canal direto com a PM (saiba como funciona).

Ações do Estado

Questionado pela a imprensa sobre as ações de combate e prevenção à violência contra a mulher, o governo explica que as forças de Segurança Pública do Estado trabalham em diversas frentes para prevenir e enfrentar a violência contra a mulher.

Neste ano, por exemplo, foi criado o Núcleo Especializado de Investigação de Feminicídios, com o objetivo de dar mais agilidade e eficiência às investigações de crimes de feminicídio consumado.

No Estado há, ainda, 72 Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (Deams), unidades da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), voltadas ao atendimento humanizado das vítimas que se deparam com qualquer espécie de violência doméstica.

A Polícia Militar também conta com a 1ª Companhia de Polícia Militar Independente de Prevenção à Violência Doméstica contra as mulheres (PVD). Cabe à companhia prestar o segundo atendimento às mulheres, a partir da triagem das ocorrências registradas no 190, na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) e demais delegacias que recebem este tipo de ocorrência.

Os policiais, em geral, vão à casa de mulheres que estiveram envolvidas e algum tipo de ocorrência de violência doméstica e dão orientações de encaminhamento psicológico, social ou jurídico.

Além disso, também existe o programa Mediação de Conflitos (PMC), da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) em que os atendimentos às mulheres são maioria, totalizando aproximadamente 70% do público atendido. No primeiro semestre de 2019, o programa realizou cerca 16 mil atendimentos. Entre os casos de violência atendidos, 49,3% envolvem violência doméstica e familiar contra a mulher e 18,3%, violência intrafamiliar.

“Ao intervir de forma preventiva e/ou no enfrentamento à violência contra a mulher, o programa esclarece direitos, media conflitos e intervém na busca pela proteção da mulher que relata risco à vida. Esclarece, ainda, junto às mulheres, direitos que coabitam o ciclo da violência como reinvindicações de paternidade, pensão de alimentos etc”, diz o estado.