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Em áudio, deputado Luis Miranda conta estratégia para conseguir nunca ser intimado pela Justiça

'Seria ludibriar, fraudar o sistema jurídico, pra gente ganhar fôlego', disse, em 2013, durante reunião. Conteúdo está anexado a um dos processos contra o parlamentar.

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O deputado federal Luis Miranda (DEM-DF), acusado de aplicar golpes milionários em vítimas no Brasil e nos Estados Unidos, tinha uma estratégia para escapar da Justiça: dar um jeito de nunca ser intimado.

A imprensa obteve um áudio gravado de 2013, no qual ele explica o plano durante uma reunião com funcionários. O conteúdo está anexado a um dos processos contra Miranda:

“Seria ludibriar, fraudar o sistema jurídico, pra gente ganhar fôlego pra poder criar metodologias pra ganhar dinheiro.”

Ouça o áudio

Deputado federal Luis Miranda (DEM) conta estratégia para não ser intimado pela Justiça

Deputado federal Luis Miranda (DEM) conta estratégia para não ser intimado pela Justiça

A estratégia do deputado era mandar que os funcionários dissessem que a Fitcorpus não funcionava no local onde estava. O juiz, então, perguntaria a quem o processou onde seria a empresa. Quando a vítima respondesse que era no mesmo lugar, o juiz diria que o oficial de Justiça – que tem fé pública – foi ao local e descobriu que ali funcionava outra empresa.

No áudio, o próprio Luis Miranda disse que a medida era “imoral”, mas admitiu que, assim, “a Justiça não pode fazer nada”: “Ela trava se ela não acha a empresa”.

Leia a transcrição do áudio

“Eu comecei a ver os resultados do processo. Quando o oficial de Justiça voltar, vamos dizer assim: ‘Não, a Fitcorpus Clínica de Estética não é lá’.

A decisão do juiz era assim: ‘Bom, se não é lá… pergunta pra outra parte onde é.

A outra parte: ‘Mas é lá’.

[O juiz:] ‘Não. Uma pessoa que tem fé pública, que é o oficial de Justiça, foi lá e disse que e não é lá. Lá tem outra empresa. Fitcorpus Assessoria e Serviços Ltda, que é uma franqueadora.

É imoral, mas é um jogo que depois, aí vai do meu bom-senso, vai da minha decência, de decidir o seguinte: essa pessoa merece receber, essa não, essa era sacanagem, essa aqui eu devo de verdade.

Na Justiça, a Justiça não pode fazer nada. Ela trava se ela não acha a empresa.”

O que Luis Miranda diz

Em vídeo enviado à imprensa, o deputado perguntou “o que está de errado nisso”: “Eu estava orientando umas pessoas de que, se fossem à minha empresa, eu atenderia, iria obviamente dar a devida atenção e efetuar o pagamento, conforme o próprio áudio fala, daqueles que provavelmente a gente deveria”.

“Agora, nos casos em que era sacanagem, que o processo não era nosso, era de outro franqueado, esses eu não iria pagar. Claro que não. O que está de errado nisso?”

Desde sábado (7), quando foi entrevistado pela equipe do Fantástico, Luis Miranda nega todas as acusações. Ele prometeu ao DEM prestar esclarecimentos até quarta-feira (11).

A assessoria de imprensa de Luis Miranda não soube informar se o parlamentar vai à Câmara dos Deputados nesta segunda-feira, porque ele passou por cirurgia de hérnia em 31 de agosto.

Deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) é acusado de aplicar golpes no Brasil e nos EUA — Foto: TV Globo/Reprodução

Deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) é acusado de aplicar golpes no Brasil e nos EUA.

Relatos de vítimas

O empresário Sandro Silveira Antonalia contou ao Fantástico que teve um prejuízo de cerca de R$ 150 mil.

“Minha surpresa é que, de tudo o que ele prometeu, não aconteceu nada.”

Outro empresário, que não quis se identificar, disse que acreditou em Luis Miranda quando ele começou a vender franquias da Fitcorpus — clínica de estética criada em 2008 pelo deputado..

“Ele ficava com todo o lucro, praticamente. A gente dependia dele para o aluguel de máquinas e era onde realmente se ganhava dinheiro, que era com os equipamentos de laser”, afirmou.

Segundo o empresário, depois de quatro meses, a franquia fechou, e até hoje, Luis Miranda não pagou o que lhe devia: “A gente ficou com um prejuízo de cerca de R$ 200 mil”.

Outra empresária comprou uma franquia da Fitcorpus, mas desistiu no mesmo dia, ao ler o contrato com mais atenção. Ela exigiu a devolução do dinheiro (também cerca de R$ 200 mil), mas também disse que não recebeu nada até hoje.

Depois que se mudou para os Estados Unidos, em 2014, e ficou famoso nas redes sociais Miranda também ofereceu cursos on-line e sociedades em revenda de carros reformados e em grupos de investimentos.

Francisco Martins, ex-funcionário do parlamentar, tinha acesso a toda a contabilidade. Ele disse que Luis Miranda tinha pelo menos 280 investidores. Quantas pessoas conseguiram resgatar o dinheiro? “Eu acho que um pouco mais de 10 pessoas. Não mais que isso.”

Um brasileiro que mora nos Estados Unidos investiu US$ 30 mil e não recebeu nenhum retorno. Outro, que mora no Brasil, investiu US$ 50 mil e convenceu um parente a usar o mesmo valor.

“Raspei a poupança e coloquei tudo na mão dele. Me separei, perdi família. Tive que tirar meus filhos da escola.”

A estimativa é de que a dívida do deputado chegue a quase R$ 9 milhões. Pelo menos 50 vítimas procuraram a Justiça exigindo a devolução do dinheiro relacionado a investimentos nos Estados Unidos.

Outros casos

Além disso, Luis Miranda teve as contas da campanha reprovadas pelo Tribunal Regional Eleitoral. Ele recorre da decisão.

O deputado também enfrenta processo de cassação na Justiça Eleitoral e foi obrigado a entregar o passaporte para a Polícia Federal devido a um outro processo, sobre indenização. Ele também está recorrendo desta decisão.

Miranda também é investigado pela procuradoria-geral da República. A apuração é sigilosa.

Nos Estados Unidos, Luís Miranda trabalha com a venda e a compra de carros e imóveis; ele foi eleito deputado federal pelo DF  — Foto: Arquivo pessoal

Nos Estados Unidos, Luís Miranda trabalha com a venda e a compra de carros e imóveis; ele foi eleito deputado federal pelo DF.

Luis Miranda conversou com a reportagem do Fantástico na tarde deste sábado (7), na casa dele, em Brasília. O deputado negou ter aplicado golpes no Brasil e nos EUA e voltou a culpar os ataques virtuais que, segundo ele, tinham como um dos objetivos tirá-lo do mercado de cursos on-line.

“Foi minado o capital por causa desses ataques. O faturamento despencou, caiu em 90%. Infelizmente, existem pessoas mau caráter. E esse não sou eu. Estou aqui de cara aberta querendo resolver os meus problemas. E resolvendo todos da forma mais correta possível, dentro da lei”, afirmou.

Sobre Sandro Silveira Antonalia, que se diz vítima do golpe, o deputado alegou que ele nunca foi um investidor. Sobre a suposta falsificação das planilhas apresentadas aos sócios, Miranda culpou o ex-funcionário: “Eu não sou especialista em números, ele era a pessoa que se responsabilizava por isso. Ele vai responder por isso e vai responder de verdade”.