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Ex-Fla, goleiro brasileiro concilia carreira no Maccabi Tel Aviv ao serviço no exército de Israel

Imagine ser goleiro titular de um time campeão nacional na Europa e, em meio à rotina de profissional do futebol, cumprir o serviço militar obrigatório. Esta é a inusitada realidade vivida por um brasileiro em Israel. O arqueiro Daniel Tenenbaum, do atual bicampeão Maccabi Tel Aviv, há dois anos precisa, entre treinos e jogos, “bater ponto” no quartel.

Recentemente, o mundo do futebol acompanhou a o drama de Son, astro da Premier League que esteve ameaçado de interromper a carreira para cumprir o serviço militar na Coreia do Sul. Mas em Israel isso é praticamente uma rotina para os jovens atletas nascidos no país, que impõe o alistamento e serviço obrigatório para jovens a partir dos 18 anos. É necessário, entre os homens, pelo menos 32 meses servindo às forças militares do país, em uma regra que se aplica também àqueles que se tornam cidadãos israelenses. É o caso de Daniel, que rumou para o país em 2016, após se tornar profissional no Flamengo.

– Comentaram comigo antes de eu vir, mas falaram que eu ia me livrar disso. Mas um dia chegou uma carta aqui em casa. Fiquei assustado, claro. Imagina receber uma carta dizendo que você precisa ir pro exército de Israel (risos) – lembra o brasileiro, que começou o serviço no ano passado, aos 23 anos, e pela idade, só ficará 24 meses junto ao exército.

A convocação veio em meio a uma tentativa de Daniel de dar um novo rumo à carreira. Após se profissionalizar no Flamengo, onde chegou aos 15 anos, Daniel não conseguiu espaço no time principal, tendo feito apenas uma partida oficial no clube, em 2014. Então, em 2016, aos 21, decidiu tentar a sorte em Israel, país com o qual tem laços familiares.

Daniel, hoje com 25 anos, foi emprestado ao Maccabi Tel Aviv e imediatamente recebeu a cidadania israelense, concedida a descendentes de judeus. Com o novo passaporte também veio a obrigação, que os jovens do país geralmente vivem aos 18 anos – alguns conseguem se livrar, mas, em geral, quem se recusa a se apresentar pode ser preso.

Daniel celebrando o título israelense de 2019/20: goleiro foi titular na temporada — Foto: Divulgação/Maccabi Tel Aviv

Daniel celebrando o título israelense de 2019/20: goleiro foi titular na temporada.

O goleiro admite que, em um primeiro momento, ficou assustado com a possibilidade de ter que participar de operações em um país sempre envolvido em conflitos regionais. Mas logo desmistificou o serviço obrigatório.

– Comecei a falar com as pessoas, com o clube e fiquei mais tranquilo. Fui sabendo que o meu serviço não seria nada difícil e daria para conciliar. No primeiro mês, houve o treinamento obrigatório, fiquei direto na base. Depois para outra, ia para casa para dormir. Hoje em dia, só faço serviços administrativos, mas tenho que usar farda, sim (risos). É uma experiência legal no fim das contas.

Brasileiro chegou a Israel em 2016 — Foto: Divulgação

Brasileiro chegou a Israel em 2016.

A vivência do atleta, naturalmente, é diferente de outros militares convencionais. Atualmente, ele continua servindo, marcando presença no quartel praticamente todos os dias. Quando é necessário se ausentar pelas viagens do Maccabi, no dia seguinte não há folga: é preciso se apresentar.

– O clube ajuda, tem contato com o exército. E aí fica tudo em função da agenda de treinos. Se eu treino de manhã, vou à tarde. Vou sempre no turno oposto ao escritório. Tenho que ir todo dia, só consigo permissão especial para jogos ou para concentrar aqui ou para viajar. Eles sabem disso, eu resolvo com o comandante. Todo dia depois do jogo tenho que aparecer lá – conta.

O serviço não impõe nenhum trabalho físico a Daniel, que se formou em administração enquanto concluía as categorias de base no Flamengo. Desde os 17 anos, ele se acostumou com as viagens de mais de 36 quilômetros do Ninho do Urubu, em Vargem Grande, na Zona Oeste, até a Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde ficava sua faculdade.

Conciliar os estudos com o esporte foi rotina desde a infância para ele, que começou no futsal do Vasco aos 13 anos, passou para os gramados e acabou tendo que abandonar o esporte por um tempo pela mudança nos horários do treinamento, que poderiam atrapalhar a rotina em seu colégio. Então, se aventurou por cerca de dois anos no remo, já pelo Flamengo, antes de tentar a vida no futebol de novo. Aprovado em uma peneira, passou a integrar as categorias de base rubro-negras.

O jovem Daniel em um dos títulos conquistados na base do Flamengo — Foto: Divulgação/Flamengo

O jovem Daniel em um dos títulos conquistados na base do Flamengo.

Foram quase sete anos passando pelas diversas faixas de formação, até que, em 2014, recebeu o convite para passar a integrar o elenco principal do clube, na gestão do técnico Vanderlei Luxemburgo. Quis o destino que naquele mesmo ano Daniel tivesse sua primeira chance de entrar em campo, na última rodada do Campeonato Brasileiro, contra o Grêmio, aproveitando uma expulsão de César.

– O Césão acabou tomando um cartão vermelho, que nem era para ter sido dado, pois foi simulação. E aí logo no meu primeiro lance, foi uma cobrança de falta, e eu tomei o gol do Luan. Como logo perdi esse peso de tomar gol, fiquei tranquilo. E hoje posso contar que joguei pelo Flamengo, tenho zero frustração. Foi um período muito importante para a minha formação e só tenho a agradecer a todo o pessoal de lá – recorda.

Daniel ao lado do preparador Wagner Miranda e dos ex-companheiros Paulo Victor e Thiago — Foto: Divulgação/Flamengo

Daniel ao lado do preparador Wagner Miranda e dos ex-companheiros Paulo Victor e Thiago.

Após esse episódio, o jogador seguiu por um ano e meio como opção do elenco principal, mas não teve a chance de entrar em campo. Por isso, aceitou a proposta de empréstimo ao Maccabi Tel Aviv – que costuma procurar jogadores descendentes de judeus justamente pela facilidade de concessão do passaporte nacional, não perdendo uma vaga de estrangeiro. Após um ano, ele foi comprado e seguiu buscando o sonhado espaço no time, que veio na última temporada.

Depois de ter feito apenas cinco jogos nos três primeiros anos de clube, Daniel ganhou a vaga de titular em 2019/20 e teve bom papel na segunda conquista consecutiva do Tel Aviv no Campeonato Israelense. A equipe levou apenas oito gols nos 33 jogos em que ele esteve debaixo das traves.

– Foi a primeira temporada em que joguei como primeiro goleiro, uma temporada dos sonhos. Recebi oportunidade, o pessoal confiou em mim, e fiz um bom trabalho. Falam aqui que esse ano a defesa se destacou muito. Mesmo sem um grande jogo, não levávamos gols, e acabávamos achando um gol lá na frente.

Maccabi Tel Aviv conquistou bicampeonato em Israel — Foto: Divulgação/Maccabi Tel Aviv

Maccabi Tel Aviv conquistou bicampeonato em Israel.

Agora, o brasileiro vislumbra uma outra etapa que pode ser histórica para a sua carreira: disputar uma partida da Liga dos Campeões, a primeira continental em seu currículo. Após férias curtas por conta da paralisação pela pandemia da Covid-19, ele nem mesmo pôde retornar ao Brasil, como de costume, para não precisar ficar duas semanas de quarentena no retorno. Desta forma, ele já está novamente na ativa, em pré-temporada com o Maccabi, de olho nos playoffs da Champions, marcados para os dias 17 e 18 de agosto.

– Seria meu primeiro jogo na Liga dos Campeões. É um sonho, uma experiência única. A galera toda está animada, aguardando esse jogo – afirma.

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