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Luiz Thunderbird, devoto do rock, conta boas histórias de resistência em autobiografia de fôlego

♪ Em essência, o que o músico, compositor e apresentador de TV Luiz Thunderbird apresenta na autobiografia Contos de Thunder é espontânea narrativa de superação, sem o sentimentalismo e sem os clichês recorrentes nos padronizados livros de autoajuda.

Paulistano nascido em 8 de abril de 1961, Luiz Fernando Duarte é valente sobrevivente que conta no livro (boas) histórias de resistência.

Resistência ao uso abusivo de drogas como cocaína, às quais já não recorre, após bem-sucedida internação em clínica para dependentes químicos.

Resistência ao vaivém da indústria da música para manter em atividade na cena underground paulistana, após sucessivas mutações na formação, a banda Devotos de Nossa Senhora Aparecida, grupo de psychobilly que Thunderbird formou em 1986 e que, portanto, completará em 2021 bravos 35 anos de vida, sempre trilhados à margem do mercado.

Resistência às entradas e saídas da MTV, onde ganhou visibilidade a partir de 1990 como um dos pioneiros VJs da filial brasileira da emissora pop norte-americana, na qual o então cirurgião dentista ingressou, trocando a odontologia pela música.

Resistência, enfim, às vicissitudes da vida, louca, vida que as estatísticas fizeram supor erroneamente que seria breve.

Desafiando o censo, após longa fase em que desafiou o senso de amor a si próprio, Thunderbird se prepara para festejar 60 anos de vida em abril de 2021 – cheio de vida e de planos.

Enquanto revê o passado sem autopiedade nessa autobiografia de texto assinado com os jornalistas Leandro Lamim e Mauro Beting (que desviou o curso do livro idealizado em 2010 ao perder todo o material colhido durante três anos em entrevistas para a feitura da biografia), Thunderbird encara o futuro.

Antenado VJ convertido em youtubber e podcaster, sem jamais perder a devoção ao rock, o artista volta ao disco neste ano de 2020 com o primeiro projeto solo da carreira fonográfica, Pequena Minoria de Vândalos, álbum do qual já apresentou os singles A obra (recriação de música do grupo mineiro Sexo Explícito) e Insuportável (rock composto e gravado em casa com a little help do amigo e parceiro Guilhermoso Wild).

Aparentemente sincera (ainda que a memória sabidamente atue de forma seletiva e trapaceira na percepção humana da própria vida), a narrativa em primeira pessoa de Luiz Thunderbird flui bem ao longo das 392 páginas do livro.

Impressionam os relatos do mergulho fundo nas drogas ao longo da década de 1990, sobretudo no binômio 1996-1997 – a ponto de ter sido advertido por João Gordo e Nasi, dois cantores que também pegavam pesado naquela época.

Impressiona também o carinho de vários roqueiros por Thunderbird, como Pitty que, de acordo com relato do autor, certa vez saiu de casa sem aviso prévio para gravar versão de música estrangeira com a banda Devotos, quando Thunderbird ligou para a artista e sondou a possibilidade de ela ir ao estúdio naquele momento. E ela foi. Detalhe: por questões jurídicas relativas aos direitos autorais dos compositores da música, a faixa com Pitty nem foi aproveitada no disco do grupo.

O texto também prende (muito) a atenção do leitor quando Thunderbird descortina os bastidores da MTV sem censura.

Enfim, Contos de Thunder – A biografia é livro recomendável porque Luiz Fernando Duarte tem muito o que contar. E ele conta, com o fôlego renovado de ex-cocainômano e ex-sedentário que, contra todos os prognósticos, virou resistente maratonista, correndo para recuperar o tempo perdido, sem perder a devoção a esse tal de rock’n’roll.

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